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terça-feira, 28 de julho de 2020

A Toupeira Ideológica

Um indivíduo que crê profundamente na Liderança de uma corrente política e se torna absolutamente impermeável à razão e aos argumentos, que renuncia à capacidade de analisar criticamente, de ver que há alternativas às suas verdades absolutas, que adere às ideias dessa Liderança política e espiritual - sim, a ligação se torna tão forte que parece ser também espiritual, além de política - mesmo quando não está de acordo com elas, somente para não ter que aceitar as alternativas oferecidas pelo "outro lado" (quando se chega a este ponto o mundo se divide entre "nosso lado" e o "outro lado"). Esse indivíduo jamais reconhecerá uma só falha do seu Líder, por maiores e mais absurdas sejam. Por outro lado, a todos os que forem considerados "do outro lado" só restarão desqualificação, críticas e acusações, ainda que infundadas, nunca algum reconhecimento. 
Esse indivíduo acha perfeitamente legítimo e defende tenazmente o uso abusivo de instrumentos de Estado para favorecer o seu grupo e perseguir os adversários, mas reage com a ira dos puros e imaculados quando a roda gira e os papéis se invertem.
Esse fenômeno de adesão cega às ideias, e muito especialmente quando essas ideias são personificadas numa Liderança Política, é muito intrigante porque quando se olha o indivíduo afetado por ele não se nota nada estranho à primeira vista. São pessoas de todas as classes sociais, de todos os níveis de educação, de todas as cores, de todas as religiões. Intelectuais de alto gabarito, médicos, engenheiros, policiais, militares, líderes religiosos, empresários, trabalhadores humildes, pacatas e serenas donas de casa. Tão casual que há rivalidades intransponíveis dentro de famílias, quando irmãos são igualmente afetados, mas pelos lados opostos.
Em 2020, no auge da pandemia de Covid-19 no Brasil, o indivíduo acima se personifica no chamado gado Bolsominion (claro que quem o chama assim está do "outro lado"). Quer a retomada imediata das atividades econômicas, o uso intensivo de cloroquina para combater a doença, a queda do STF e do Congresso Nacional, a liberação das atividades de madeireiros e garimpeiros na amazônia, a liberação da matança pela Polícia, a liberação do comércio de armas e a demonização da imprensa, tudo como aponta seu Mito.
Mas eu já vi o fenômeno antes, com sinal trocado. Estudava na USP durante o governo Dilma. Lá observava desde professores-doutores altamente intelectualizados, passando por funcionários até chegar aos alunos ingressantes o mesmo que observava no meu trabalho, nos grupos sociais do meu convívio, na imprensa e nas artes. A intolerância com qualquer questionamento ao ideário do PT e a Lula. A desqualificação da imprensa que expunha as mazelas da administração petista, a tentativa de radicalizar o avanço de pautas a que resiste a sociedade brasileira, o grito ofendido de se dizer vítima perseguição a cada descoberta de um novo crime.
Então, sendo esse fenômeno que afeta tão duramente as pessoas na sua persona política, levando à radicalização ideológica tão comum e atingindo gente de todos os espectros da sociedade, levando uns cegamente para um extremo e outros para o outro, poderíamos chamá-lo Síndrome da Toupeira Ideológica.

sábado, 2 de maio de 2020

A radicalização da Política e a morte

A experiência de escrever num blog se mostra muito interessante porque a gente consegue resgatar as próprias ideias tempos depois e verificar se o que pensávamos antes ainda faz sentido ou não.

No dia 01 de Julho de 2017 eu escrevi três pequenos textos (aqui 1aqui 2 e aqui 3) descrevendo o agente político radical, a sua importância para forçar o surgimento de inovações nas sociedades, por seu inconformismo e sua atitude disruptiva, mas mostrando, por outro lado, o perigo que ele representa, na medida em que a disrupção que ele sempre busca pode sair de controle e causar enormes danos, incluindo banhos de sangue, dos quais a História esta cheia de exemplos.

Revendo esses textos após três anos, vejo que continuo acreditando nas mesmas ideias e constatando que nos dias atuais correntes radicalizadas estão, se não ainda no controle, exercendo grande influência  na política internacional, notadamente, partindo do mais próximo para o mais distante, no Brasil, nos EUA, no Reino Unido, na Italia, na Hungria, dentre outros.

O que se vê, então, é que há uma onda internacional crescente de insatisfação e radicalização, que já avançou bastante em alguns países. Se trata então de um fenômeno social internacional, mas não global, porque não afeta de modo igual todos os países. A crise pandêmica (que atinge o mundo todo) que vivemos oferece uma boa oportunidade de observar esse fenômeno na prática.

O comportamento radical, anti-institucional e anti-establishment, tem mostrado sua cara de modo bastante didático nessa pandemia e as sociedades onde essas tendências radicais estão mais influentes e poderosas, como as dos países nomeados acima, tem pago um alto preço em mortes de cidadãos. Mortes na maioria das vezes evitáveis, como mostram os resultados perfeitamente comparáveis alcançados pelos governos moderados, que aceitam o conhecimento científico e as recomendações dos estudiosos e tomam as medidas necessárias para proteger seus cidadãos.

Historicamente as sociedades sempre voltam para o equilíbrio, para a moderação, abandonando ou expulsando seus radicais do poder. A questão, sempre, é saber quantos corpos são necessários para aplacar a fúria e restabelecer o comando da moderação.

sábado, 1 de julho de 2017

Radical: quando o remédio envenena

Num post anterior eu argumentei que o radical é um elemento necessário na política. É isso mesmo, mas normalmente os radicais são minoritários e, embora consigam fazer suas pautas aparecerem e influenciar no avanço das sociedades, eles tem muito pouco poder, do ponto de vista governamental.
Ocorre que às vezes, sob condições de crises severas, com o advento de algum líder excepcionalmente carismático e bom de comunicação, uma facção radical acaba por tomar o poder político.
Não tem erro. Toda vez que isso acontece milhares ou milhões perdem as vidas. O radical quer impor suas ideias, quem não aceita é sabotador, é traidor, é insuportável.
Po isso toda sociedade saudável tem que saber reconhecer seus radicias, garantir e delimitar seu espaço de atuação e tomar as medidas necessárias para vedar terminantemente seu acesso ao poder político central.

Radical: um elemento necessário numa sociedade saudável

A Política é a maneira que a humanidade encontrou para viabilizar o convivio das pessoas em comunidade, sem a necessidade de cada um carregar consigo uma borduna ou um tacape ou uma espada, para resolver as disputas que surgem no dia a dia.
A política, no sentido de governo, é praticada por pessoas hábeis na arte da negociação, na aparação de arestas e cantos vivos nas relações sociais, de modo a fazer o convivio das pessoas no mesmo espaço possível.
Ocorre que a habilidade política e a predisposição a evitar conflitos, no extremo, tende a ser uma coisa demasiadamenge avessa à contestação e ao confronto. Ainda que às vezes isso seja necessário e justificável.
Nesse contexto surge o radical como uma figura indispensável. Ele não tem amortecedores nem sente nenhuma necessidade de aparar arestas ou cantos vivos. Só sabe distinguir se o que vê está conforme ou não conforme suas concepções. E a partir daí toma suas decisões e age.
O radical é, nessa minha versão benigna, o palhaço, que expõe as verdades mais cruas com uma piada; o bobo da corte, que não se constrange, em meio a muitos que fingem não ver, em gritar que o rei está pelado.
Nesse sentido, os radicais exercem um papel importante na política ao forçar a movimentação do staus quo. Seu inconformismo com determinadas situações ou condições da sociedade acaba influenciando profundamente a todos e provocando importantes inovações sociais.

Radical: a receita de um

Radical, radix, raiz, fundamento.
Pegue uma mente simples, tosca, obtusa, rombuda. Ela será violentamente aversa a complexidades, nuanças, sutilezas. Sua construção geralmente comporta apenas dualidades, dicotomias, bi-polaridades. A intolerância com o que desafia suas concepções de mundo é sua marca registrada.
Junte alguns "pré-conceitos" simplificadores de questões absolutamente complexas do nosso cotidiano como ética, moral, política e religião. Misture ambos num ambiente tenso de crise, sob influência de agitadores que sabem agitar essa mistura com a dose certa de energia e propaganda.
Pronto! Temos um radical prontinho. Muitos o conhecem também como fundamenlista.
Ele é uma força da natureza. Não tem nenhuma dúvida, só certezas.
Com os incentivos certos será capaz de matar um, dez, cem, milhões. Jamais terá um segundo de incerteza ou um ataque de consciência pesada.
O Brasil está cheio de gente se comportando de maneira radical no campo político, mas crê-se que um pouco de argumentação baseada na lei e na racionalidade retirará paulatinamente o apoio que os líderes tem recebido de uma massa de pesssoas que são na verdade apenas enganadas por falsos profetas.